Doutorado e rede de apoio

Mais do que em todas as outras vezes que constatei isso, de modo algum, o doutorado é um trabalho puramente individual. Nos últimos anos tenho passado por alguns desafios pessoais e problemas de saúde com familiares que contam comigo para o apoio necessário. Há também minhas próprias dificuldades e limitações, como acontece com todo mundo. Uma dessas minhas dificuldades é minha natureza controladora.

Pois bem! Quanto mais o doutorado avança, e as questões pessoais que referi se intensificam e requerem mais do meu tempo e energia, eu percebo a importância dos múltiplos apoios que recebo. No atual momento ter o controle de tudo é absolutamente inviável. Então, o que fazer?

A receita aqui está no minímo viável diário e no aceitar, cheia de gratidão, cada apoio que recebo. E não só o apoio emocional, mas principalmente o auxílio de fato, na realização de tarefas do dia a dia e na dedicação de seu próprio tempo.

Há pessoas que seguram alguns dos vários pratinhos que eu tenho que equilibrar enquanto pesquiso. No trabalho tenho alguns colegas que conseguem manter o ambiente leve e estão sempre prontos para dialogar e renegociar prazos, quando é preciso. Em casa, o marido é essencial. Sei que posso contar com ele. Ele toma iniciativas e me lembra que eu também preciso descansar. Há ainda os bons amigos que a vida acadêmica me deu na minha área (por todos, tenho que destacar Ana Rita e Ana Poças) e noutras áreas científicas (por todos, Júlia e Leo – https://ferramentasparadoutorandar.wordpress.com/) . Estes bons amigos compõem uma comunidade e dividem comigo os sentimentos que o doutorado me traz.

Pra quem ainda não tem uma rede de apoio, recomendo muito que busquem a sua ou reconheçam os seus. Meu doutorado é meu, mas não seria se não fossem estas pessoas tão queridas.

Diário de uma Doutoranda 4 – Acordando cedo para fazer as tarefas do doutorado

Enquanto escrevo este registro são 05h50 minutos, em um domingo.

É verão, então o sol brilha lindamente lá fora e eu sinto minha cabeça arejada e fresca.

Este é sem dúvidas o melhor horário para minha cabeça produzir e escrever qualquer coisa, incluindo aqui as tarefas do doutorado.

Acordar cedo, quando tive uma boa noite de sono, me dá a tranquilidade das manhãs, cheias de silêncio e de ar fresco. É inspirador. Recomendo.

Não terei a manhã inteira para escrever, então aproveitar a primeira hora do dia para isso é a primeira grande vitória do dia.

Diário de uma Doutoranda 3 – LISTA DE AÇÕES DE PESQUISA/ESCRITA PARA FAZER EM MINUTOS 15 MINUTOS, QUANDO TENHO POUCO TEMPO OU QUANDO NÃO ESTOU INSPIRADA PARA COMEÇAR.

woman typing on laptop
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Me inspirei na noção de mínimo viável diário e em blogs acadêmicos estrangeiros para montar minhas listas.


AÇÕES DE ESCRITA


• Definir um arquivo mestre para o meu texto;

• Fazer um brainstorm de algumas ideias para escrever;

• Colocar juntos partes de velhos documentos eu já escrevi e que se relacionam;

• Digitar notas que estão no meu caderno ou bloco de anotações (de ideias esparsas ou de reuniões de trabalho);

• Agrupar algumas ideias em categorias (Rearranjar alguns tópicos de pesquisa por temas gerais e interconexões);

• Organizar as ideias de um brainstorm;

•  Esboçar títulos e subtítulos de um texto no qual esteja trabalhando;

• Esboçar alguns tópicos sentenciais para parágrafos;

• Estruturar as ideias de um esboço;

• Escrever alguns subtópicos, ou ideias complementares nas margens do esboço;

• Expandir o esboço;

• Escrever a definição de alguns termos específicos a serem usados no meu texto;

• Escrever uma introdução baseada nas minhas intenções para o texto;

•  Usar alguns writing prompts (propostas de escrita) e fazer uma escrita rápida, completando sentenças do esqueleto do texto.
Sobre writing prompts: https://www.ficcionados.com.br/artigo/writing-prompts/https://www.ronizealine.com/2013/07/20/o-que-sao-writing-prompts/

AÇÕES DE APRESENTAÇÕES

 
•   Escrever a primeira versão de resumo um para uma apresentação;

•  Esboçar um poster ou slides;

•  Revisar um poster ou slides que tenha preparado anteriormente;

AÇÕES DE EDIÇÃO


•  Editar algumas seções ou parágrafos que escrevi noutro momento;

• Reestruturar algum parágrafo;

• Checar as referências e notas de rodapé;

• Escanear  visualmente o texto e checar se alguns pontos podem ser removidos ou abreviados;

• Revisar as normas técnicas (fonte, espaçamento, etc e tal);

• Checar se algum ponto essencial foi esquecido ou pouco desenvolvido.

AÇÕES DE PESQUISA DE LITERATURA, ORGANIZAÇÃO E LEITURA


• Pesquisar e/ou fazer download de um artigo;

•  Pesquise artigos específicos que estejam na minha lista;

•  Pesquisar meu tópico de pesquisa numa revista específica ou num repositório acadêmico específico;

• Ler apenas o resumo, a introdução e a conclusão de um artigo para saber se seria promissora sua leitura e categorizá-lo;

• Conferir se as referências estão corretamente identificadas no mendeley.

• Colocar os artigos ou textos que vou usar em uma pasta diferente;

• Lista num arquivo em separado os principais autores que vou usar num determinado texto;

• Ler um ou dois resumos de artigos, teses ou outras produções;

• Sumarizar ou tomar notas sintéticas de um texto que já li anteriormente;

•  Ler 5 páginas de um artigo ou texto da minha lista.

Diário de uma Doutoranda 2 – O mínimo viável diário

Sou uma doutoranda que, além de trabalhar na pesquisa, tem trabalho em tempo integral como servidora pública e professora. Felizmente já cumpri minhas disciplinas todas, mas tenho uma tese para entregar.

Em casa não temos empregados e eu acho importante preparar nossas refeições em casa, com comida de verdade e também dormir de sete a oito horas por noite.

Estas minhas vontades e obrigações às vezes me colocam, mesmo com meu dedicado planejamento semanal, em algumas dificuldades para “dar conta de tudo”.

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As vezes é difícil manter todas as bolinhas no ar.
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A minha solução foi adotar um conceito muito simples denominado “mínimo viável diário” para todas as coisas que são realmente importantes e que precisam ser feitas, ou, caso contrário, eu vou ter problemas mais difíceis de resolver no futuro ou em breve.

Pois bem, eu planejo a minha semana e então eu sei o que acontecerá e crio meus blocos de tempo de trabalho e de estudo, conforme as agendas dos meus trabalhos e minha própria disponibilidade de energia para os tipos de tarefa.

Mas eu sei que coisas podem acontecer no meio do caminho. Pode aparecer um compromisso com o qual eu não contava e que eu não posso recusar, demandas de outras pessoas podem acabar sobrando para mim, eu posso ficar doente ou simplesmente me cansar mais do que eu gostaria com certa atividade… enfim, a vida é assim mesmo. A gente planeja, mas muita coisa pode influenciar nossos planos e nossa produtividade.

Em geral, o que mais influencia minha mudança de planos é o meu nível de energia, minha disposição física e mental para fazer certas coisas.

De qualquer forma, o que me salva é ter uma lista do meu mínimo víavel diário para cada área essencial na minha vida. O mínimo não é o ideal, não é o que eu deveria fazer sempre, mas é o necessário para que as coisas não saiam do controle até que eu possa dar a correta atenção para elas. Segue o meu mínimo viável diário:

Fazer minhas refeições adequadamente (comida de verdade); Se eu não conseguir preparar, simplifico e peço um delivery mais saudável;

Dormir sete horas por noite;

Ler pelo menos 5 páginas de um texto em que esteja trabalhando para a minha tese;

Escrever pelo menos dois parágrafos (a ideia é só me manter em contato com a tese, mesmo que depois não possam ser bem aproveitados);

Fazer 15 minutos de alongamento ou qualquer atividade física;

Responder mensagens e emails urgentes (o que não for urgente, espera);

Cumprir os prazos do dia (contas a pagar, parecer para finalizar, atividade para corrigir, notas para publicar) ou renegociá-los para o futuro;

É o ideal? Não.

Eu consigo fazer isso? Consigo!

Mesmo nos dias mais corridos, mais cansativos, com menos energia, eu consigo fazer isso. E com isso garanto que não vou me desconectar da minha tese e que minha sobrevivência está garantida. É o essencial neste específico momento.

Nos dias difíceis isto é o suficiente. A louça na pia pode esperar, compromissos e prazos adiáveis podem ser adiados, minha lição daquele curso em que me matriculei pode ser feita outro dia, o preenchimento daquela planilha também e a maioria das minhas tarefas pode ser adiada.

Quando a minha energia houver melhorado ou quando a correria passar (às vezes isso acontece no mesmo dia ou no seguinte), eu volto ao meu ideal.

O importante é ter consciência de que é isto que estou fazendo e ter o controle correto dos meus prazos e tarefas a fazer (Viva a agenda e a lista de tarefas organizadas!).

Sabendo bem disso, eu sei que o mundo não vai acabar só porque eu diminuí o ritmo num ou outro dia.

E isto ainda me ajuda a observar porque o dia foi caótico ou difícil e buscar soluções para a raiz do problema. Estou doente? procuro ajuda médica. Me planejei mal? Vou ter mais cautela na organização das tarefas nas semanas seguintes. Me deixei perturbar ou envolver pelas tarefas de outras pessoas? Vou dialogar com a pessoa e sugerir alternativas. E assim por diante.

Te convido a pensar sobre o seu mínimo viável diário.

Este conceito de mínimo viável diário eu aprendi neste livro: https://amzn.to/3kBqoRE

Diário de uma professora universitária 2 – Como eu preparo uma aula

Semana passada eu trouxe aqui uma perspectiva do que seja uma aula.

person writing on notebook
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Mas como se prepara uma aula quando você é professor universitário?

Vou falar aqui do meu processo de preparação de aulas para a graduação, pois tudo depende do contexto. Preparar uma aula para a pós-graduação, para um curso de curta duração, para um preparatório da OAB são coisas diferentes e obedecem a critérios diversos.

A minha preparação de aulas começa muito antes delas serem ministradas, antes do início de cada semestre letivo.

Neste período em que a maioria dos profissionais está aproveitando loucamente o fim do recesso ou o fim das férias, eu, como professora, estou começando minha preparação das aulas.

Todo início de semestre eu verifico se já ministrei a disciplina anteriormente, se já tenho materiais e arquivos associados à disciplina no meu computador e nos meus repositórios de arquivos, bem como os livros básicos que tenho disponível aqui em casa, em meio físico ou eletrônico.

Separo estes itens numa única pasta e, então, dou uma conferida na Ementa da disciplina, que expõe o que a instituição de ensino listou como conteúdo programático e referências bibliográficas básicas e complementares.

Isto é importante para duas coisas: 1. garantir que a Ementa não tenha sido alterada, e, por consequência, meu conteúdo programático, minha carga horária disponível. 2. usar nas minhas aulas referências que estejam disponíveis na instituição de ensino para os alunos (não adianta preparar um curso com referências inacessíveis aos alunos).

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Com estas informações e documentos ao meu dispor eu abro o calendário do semestre e já listo as datas máximas que terei para fechar as etapas avaliativas. Há instituições que possuem duas provas por semestre, enquanto outras exigem pelo menos três provas por semestre. E cada instituição ainda tem regras sobre o processo avaliativo, prazo para lançar as notas nos portais acadêmicos, fazer retificações, dar feedback para os alunos, etc e tal. Em algumas instituições este prazo é mais ou menos flexível.

Isto é muito importante pra mim, pois assim sei quantas horas, aproxidamente terei com os alunos e posso fazer uma distribuição de conteúdos adequada aos eventos do semestre e datas de avaliação.

Mais que isso, posso me programar para deixar avaliações prontas com antecedência e, o mais importante pra mim, não passar o final de semana que antecede meu prazo para publicar notas presa na cadeira corrigindo avaliações até não aguentar mais.

Com tudo isto em ordem, e baseada na minha experiência anterior com outras turmas, vejo se é interessante alterar a ordem dos conteúdos ou dar mais tempo e espaço para algum assunto.

Eu já sei, com base na minha experiência, por exemplo, que preciso de pelo menos dois encontros de uma hora e quarenta minutos para ministrar o tema de Princípios da Administração Pública. Sei que posso precisar de um terceiro encontro, se o ritmo da turma for um pouco mais lento. A depender das características da turma, pode ser mais produtivo solicitar uma análise de caso a ser feita em casa pelos alunos do que trazer o tema para esta terceira aula, então, incluo estas opções no meu planejamento.

Outra coisa que muda completamente meu planejamento é o ambiente e os recursos que terei disponível. Quando estava lecionando somente no ambiente presencial eu tinha duas realidades distintas.

Na universidade pública lecionava em salas abafadas, sem ventiladores, ar-condicionado, sem água nos bebedouros, sem data-show, computador e acesso à internet precário. A depender da sala, nem mesmo o quadro estava disponível (em algumas salas até tinha, mas já estava tão desgastado que não se podia escrever nele).

Na outra instituição, particular, eu tinha estas ferramentas todas, mas precisava agendá-las. para não perder tempo.

Agora, com a pandemia, oscilei entre um modelo remoto de ensino e um modelo híbrido.

Conto tudo isso para que percebam que estes diferentes cenários exigem de mim planejamentos específicos, de modo que nunca se tem exatamente a mesma aula, se os cenários e recursos forem diferentes.

Uma vez que eu esteja ciente de todas estas condições passo a planejar cada um dos encontros.

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Gosto de abrir um documento no word ou uma página no meu caderno de notas e redijo o seguinte esqueleto, as vezes de modo linear e outras num mapa mental:

Tema da aula (Assunto listado no conteúdo programático da disciplina);

Tópicos a trabalhar (Lista de tópicos fundamentais sobre o tema. São as partes do conteúdo que precisam ser abordadas. Uso minhas notas anteriores e consulto cursos e manuais da matéria que vou ministrar. Consulto também a legislação e a jurisprudência associada ao tema, especialmente para fins de elaboração. Procuro lembrar de dúvidas e questões que os alunos tiveram em encontros anteriores e incluir na minha lista de tópicos de aula);

Objetivo da aula (o que eu espero que os alunos saibam, entendam ou sejam capazes de realizar como resultado do aprendizado da aula);

Avaliação/exercícios sobre o conteúdo da aula (lista de exercícios em papel, nos slides, no aplicativo socrative, casos concretos, tópicos para serem colocados em debate, etc. Confiro meu acervo ou elaboro neste momento de construção da aula);

Texto de base/referências (capítulo de livro, artigo científico, resumo, apostila. Consulto meus textos, meus livros, pesquiso novas fontes em repositórios como Google Acadêmico, Scielo, Vital Source, etc);

Outros materiais a serem usados (textos, peças, vídeos, imagens, slides, mapa conceitual, músicas, etc. Uso o youtube, as redes sociais e meu acervo pessoal de materiais);

Recursos técnicos e físicos (computador, data show, quadro branco, programas de computador, conforme a aula seja remota, híbreida, presencial e conforme o local em que será ministrada e o que estará disponível pra mim).

Preparar uma aula é uma tarefa criativa.

É claro que eu não uso todos os recursos possíveis em todas as aulas, pois tenho tempo, energia e espaço limitados para preparar e para executar o planejado.

E nem sempre as ideias vem nesta ordem. Isto é mais uma checklist para eu observar quando não estou nos dias mais inpirados e quando estou em períodos mais ocupados, pra garantir que não vou esquecer do que é importante. Também é uma forma de garantir que a inspiração me encontre trabalhando quando resolver aparecer. Quando você tem aulas em 5 dos 5 dias úteis da semana é impossível esperar a inspiração chegar para preparar uma aula.

Mas várias partes das minhas aulas vem de inspiração no dia-a-dia e a aula vai se construindo conforme eu vou amadurecendo ideias.

Muitas vezes estou lendo um artigo científico, lendo uma notícia de jornal, vendo uma cena de um filme, esperando distraidamente uma consulta médica ou a fila no supermercado, conversando com um amigo, acompanhando um caso jurídico em debate no STF, elaborando um parecer para um processo… e me deparo com uma situação ou um caso que funcionariam perfeitamente para ilustrar um conteúdo ou movimentar a aprendizagem dos alunos, então já arquivo para preparar minhas aulas futuras.

Isto é engraçado porque, como professora, minha cabeça nunca para de pensar em como minhas experiências e as informações a que tenho acesso podem fazer sentido em termos pedagógicos para os meus alunos. Neste sentido é um trabalho que nunca acaba. Tem sempre uma coisinha trabalhando no cérebro, nem que seja em segundo plano.

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É sempre um trabalho criativo, pois nunca se trata de simplesmente expor um conteúdo, mas se trata de antecipar questionamentos, instigar dúvidas e interesse e, principalmente, alcançar um objetivo. E há muitas formas de fazer isso.

E isto, frequentemente, leva bem mais que 1h40min que geralmente tenho a cada encontro. Por isso que planejar o semestre inteiro bem no começo é importante, pois eu me antecipo a estas necessidades e planejo aulas que vão durar desde a apresentação do tema até a avaliação do atingimento do meu objetivo entre 3 e 6 horas, ou seja, vários encontros do meu cronograma e tudo precisa se encaixar e fazer sentido.

Não se trata de lecionar tudo de cada assunto (isso seria impossível), mas de saber selecionar o que fará diferença no processo de aprendizagem naquele contexto.

Às vezes são projetos maiores, com ciclos de seminários, simulação de processos e de audiências, participação em eventos, mas eu preciso sempre saber qual o objetivo da tarefa feita por mim ou pelos alunos a cada etapa.

Dá um trabalhão, mas é um processo muito divertido de realizar e sempre surpreendente, pois, nunca é o mesmo público ou as mesmas circunstâncias, e nós sempre podemos errar de formas novas.

Adoraria saber como outras pessoas preparam suas aulas. Fiquem à vontade para compartilhar comigo.

Diário de uma professora universitária 1 – Apresentação + o que é mesmo uma aula

Acervo pessoal. Sala de Direito Administrativo em 20 de maio de 2021.

Como somos muitas coisas na vida, penso que pode ser útil compartilhar um pouco do que aprendi e aprendo constantemente com minhas atribuições de professora universitária. Isto significa que teremos aqui além do diário da doutoranda, também o diário da professora.

No primeiro deles, queria falar sobre o que é mesmo uma aula, justamente numa semana em que, numa das instituições em que leciono, “não tivemos aula” por três dias, durante os quais ocorreu um Congresso Internacional (registro acima). Eu não palestrei, mas participei como debatedora e avaliadora da apresentados.

No curso de direito ainda é muito mais comum que as aulas sejam expositivas, ou expositivo-dialogadas. Metodologias ativas, embora muito incentivadas nas instituições em que leciono, não são a regra geral ou a forma mais rotineira de ministrar aulas nos cursos jurídicos.

Pois bem. Isso cria nos alunos uma impressão, bem equivocada, de que uma aula é um momento em que um professor se coloca na sua frente e despeja conteúdos previstos na ementa da disciplina, às vezes com auxílio de slides, vídeos rabiscos numa lousa.

Isso faz com que, sempre que temos um evento que sai desse roteiro, como um Congresso, uma aula invertida, uma gamificação, os alunos se mostrem surpresos e até reclamem que “não estão tendo aulas”.

O engraçado é que as reclamações acerca de métodos enfadonhos de ensino e aulas excessivamente conteudísticas são proferidas pelos mesmos alunos que reclamam quando a dinâmica de ensino-aprendizagem muda.

Mas o que é uma aula?

Gosto da definição do Gilles Deleuze, segundo quem uma aula é “uma espécie de matéria em movimento”. Ele faz uma bela analogia com um ato musical. Fala que uma aula não é só inteligência, mas é emoção também, pois isto permite o afloramento de vários centros de interesse que vão passando entre os participantes da aula e formando um tecido esplêndido, uma textura.

Se é assim, e eu acredito que é assim, uma encontro que contenha tão somente um único sujeito, cem por cento do tempo monopolizando a palavra, e fazendo isso sem a capacidade de despertar interesses entre os participantes, não é uma aula. Não é verdadeiramente um ato pedagógico, pois não é capaz de digirir e estimular o aprendizado.

Daí que uma aula pode ser conduzida sim, de um modo mais tradional, com exposição do professor e diálogos com os alunos.

Quando se promove um seminário e se coloca como expositores principais os alunos, também temos aula.

Quando estudiosos de renome internacional se reúnem para falar das implicações de seus objetos de pesquisa temos aula.

Quando se parte de um problema e se dedica um tempo para que os alunos descubram por si mesmos as soluções temos aula.

Há tantas formas de fazer esta mediação que é um verdadeiro desperdício das nossas capacidades mentais e do nosso tempo chamar de aula um monólogo de natureza manualesca.

Se você quer alguém pra ler pra você um livro, não precisa de aula, nem de interferência humana. Hoje há ferramentas até no word que leem textos… Nem por isso dá pra chamar isto de aula.

É certo que é muito mais fácil ouvir sem ter que pensar. Mas, não é isso que se pode esperar de uma aula de nível superior.

É por isso que elaborar uma aula dá um “trabalhão”.

Nos próximos diários eu conto como eu faço.

Sinta-se à vontade pra apontar aqui como você faz, ou que você considera que seja uma aula.

Minha produção acadêmica: CORRUPÇÃO URBANÍSTICA:: Reflexões teórico-práticas à luz do ordenamento jurídico brasileiro.

Esta obra analisa o fenômeno da corrupção, a partir de uma perspectiva que considera seu aspecto histórico e social e seus efeitos maléficos ao sistema democrático. A metodologia empregada é de cunho eminentemente bibliográfico e qualitativo, fazendo uso de livros, artigos, legislação e jurisprudência. Busca responder ao seguinte problema: quais são as limitações e desafios no combate à corrupção urbanística? Para tanto, analisa as normas jurídicas no direito brasileiro que se propõem a descrever e estabelecer sanções civis, penais e administrativas para os atos corruptos em geral. Enfoca, em especial, a corrupção urbanística, que se desenvolve nos processos urbanísticos nos quais o poder público, exercendo seu poder de polícia, de acordo com as normas vigentes, licencia e permite usos da propriedade privada, em prol do interesse coletivo. O trabalho ainda exemplifica casos de corrupção urbanística e debate quais institutos e situações podem limitar o combate, exemplificando uma série de instrumentos aptos a tornar efetiva uma boa administração pública, livre de atos corruptivos.

Está disponível gratuitamente no kindleunlimited: https://amzn.to/2QmkvLF

CORRUPÇÃO URBANÍSTICA:: Reflexões teórico-práticas à luz do ordenamento jurídico brasileiro. por [FERNANDA KAROLINE OLIVEIRA CALIXTO]

Minha produção acadêmica: CORRUPÇÃO URBANÍSTICA:: Reflexões teórico-práticas à luz do ordenamento jurídico brasileiro.

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CORRUPÇÃO URBANÍSTICA:: Reflexões teórico-práticas à luz do ordenamento jurídico brasileiro. por [FERNANDA KAROLINE OLIVEIRA CALIXTO]